Parece que quanto mais frágil,
Mais algozes a rondar
Quanto mais débil
Mais tiranos a solta.
É fácil amar o belo
Cultuar o perfeito
Cortejar o pronto
Difícil é arriscar
No incerto
Levantar
O derrotado
Defender
O fraco.
O sonho vislumbra paz
Mas o pesadelo desafia o horror.
art
Limite
O fim do corredor
Não é o fim de todo o caminho
Nem o fim da casa
Ou o fim do mundo
É um canto onde se para
Descansa e pensa
Sobre os começos vindouros
Os novos trajetos
andanças,
Saídas.
É ali onde se lava o rosto
Se despe do pó
E se olha,
Com ternura,
O corredor vencido
A janela respingada de chuva
E tudo que ela guarda
Por tras do frágil vidro
A tiunfal escapada
A rebelde fuga
O pulo furtivo
A aventura escancarada
E até, quem sabe,
O despertar desse confinamento
A irresistível e irremediável entrega
Para a possibilidade
Para a imensidão.
Sonho/Pesadelo
Família
Infância
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia
Eu sozinho, menino entre mangueiras
lia história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
– Psiu… não corde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito
E dava um suspiro… que fundo !
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
(Carlos Drummond de Andrade)
Para esse primo que foi tio, que muitas vezes foi pai, e que dividiu memórias que coloriram minha infância. Gratidão.









