painting

sereia – mermaid – sirena – havfrue

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Sereias são seres encantados
Inventados
Improváveis
Irreais

Metade peixe
Metade moça
Vivendo no mar
Só
Eternamente

Não se sabe nada delas
E quem soube, não sobreviveu para contar

Por tantas lágrimas vertidas de seus olhos frios
O mar se tornou salgado
Revolto
Profundo
Infinito

Se sua solidão é sina
Ou necessidade
Também não se sabe

Seu canto, pranto e tristeza
Seu nado, dança e Beleza
Divide sonhos e encantos
Mergulha a imaginação humana
Nos mistérios da natureza.

Portas

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Portas me fascinam
passagens, saídas e entradas
Possibilidades, oportunidades
Chances de ação e repouso
Aconchego e liberdade.

Fechadas, ensinam a buscar outros refúgios, testar caminhos
Abertas, convidam a entrar, mas também permitem sair, buscar, sumir

Portas, portões, portais, passagens, tuneis, janelas, espaços efêmeros
Instáveis
Necessários
Simbolos de introspecção e fuga.
Proteção e libertação.
Expressão do quão aberto (ou fechado) se está para a vida.
Limiar entre a fachada sempre muito superficial
E as paredes internas, sua luz, sua escuridão.

Portas se abrem
Portas se fecham
Portas apenas estão.
Madeira, vidro, aço, ferro,
Tecido, palha, papel, algodão
Só espaço
por detrás e através
Só o momento, o lado
[in] PORTA
(trans) PORTA
{PORTA}

E a porta,
Que porta?
Ela já não importa.

Toda a dor do mundo

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Toda a dor do mundo
Não se pode pintar
Porque a dor é maior que o mundo
Maior que a pintura
E maior que a arte

Por isso que se pinta
Pelas grandes emoções que [simplesmente] não cabem

Pelas dores
Pelos medos
Pelas fúrias
E pelos amores

Todo amor e toda a dor
E tudo mais que ultrapassa a pele e os ossos
Que não cabem no espaço que são
Devem ser mecânica
Generosa
Minuciosamente pintados
Porque assim desafogam
Ou ajudam a dizimar de vez
Os olhos e as almas
Dos que, inertes
Indefesos
Ou inescrupulosamente
sentem.

Rest

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A quiet place to rest.
It’s all that is needed at times.
Silence is a supreme gift at troublesome moments.

The perfect song for this moment:

How – John Lennon

How can I go forward when I don’t know which way I’m facing?
How can I go forward when I don’t know which way to turn?
How can I go forward into something I’m not sure of?
Oh no, oh no
How can I have feeling when I don’t know if it’s a feeling?
How can I feel something if I just don’t know how to feel?
How can I have feelings when my feelings have always been denied?
Oh no, oh no

You know life can be long
And you got to be so strong
And the world is so tough
Sometimes I feel I’ve had enough

How can I give love when I don’t know what it is I’m giving?
How can I give love when I just don’t know how to give?
How can I give love when love is something I ain’t never had?
Oh no, oh no

You know life can be long
You’ve got to be so strong
And the world she is tough
Sometimes I feel I’ve had enough

How can we go forward when we don’t know which way we’re facing?
How can we go forward when we don’t know which way to turn?
How can we go forward into something we’re not sure of?
Oh no, oh no…

Listen here: http://www.youtube.com/watch?v=Wq7jLEnZw6s&feature=colike

Silent movement

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Time to look inside.
To understand and sort out the colors
Feelings and thoughts
Choosing the brushes,
Observing the quiet canvas
Blanking out the mind, the soul
Diving deep into it
To become the thread and the weft
And embody that delicate space
Between the white rough tissue
and the black soft graphite of my pencil
Gently, tenderly scretch one line at the time
And another line,
and another one and then so many
And so intensively and so madly
That the arm will fall exhausted
And the eyes will close
and the muscles will give up
All together
Collapsing in silence
Until only the sound of my breath
Will again catch my attention
And this tired breath will inspire
Inspire and expire, again and again
Until the sublime act of painting.
Love disguised in gesture
Colouring each space
Creating life and form
That will forever seat
in deadly stillness
And yet
say so much
Throughout eternity
Even long, long after I’m gone.

Oposto Complementar

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Opostos complementares

Parecem iguais, mas não são
Sentimentos opostos
Complementares
O desejo de ir, ficando
Ou o de ficar, indo.
Sonho com realidade
E realidade sonhada.
O ruído do silêncio
Luz na escuridão
Medo, multidão
Amor,
Solidão

A difícil arte de viver
Se mescla com a
Vida difícil de fazer arte.
Prazer e desesperança
Utopia, fé
Reza-se, entrega-se
Pede-se aos céus
Porque ceticamente,
[intimamente]
Não se vislumbra o divino
Tinta é só tinta
E as vezes também é vida
História
Ficção e realidade.
Vida e morte
Beleza, sujeira, maldade.
Iniquidade.

Polaridade
Confusão-harmonia.
Igual, mas diferente.
Opostos que se completam.
Se encontram, complementam.
Dualidade da unidade.
Atração e repulsão
Alma, gente
ego e alma
Caos-Paz
[caos]
Calma.

Extremos

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Parece que quanto mais frágil,
Mais algozes a rondar
Quanto mais débil
Mais tiranos a solta.
É fácil amar o belo
Cultuar o perfeito
Cortejar o pronto
Difícil é arriscar
No incerto
Levantar
O derrotado
Defender
O fraco.
O sonho vislumbra paz
Mas o pesadelo desafia o horror.

Limite

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O fim do corredor
Não é o fim de todo o caminho
Nem o fim da casa
Ou o fim do mundo
É um canto onde se para
Descansa e pensa
Sobre os começos vindouros
Os novos trajetos
andanças,
Saídas.
É ali onde se lava o rosto
Se despe do pó
E se olha,
Com ternura,
O corredor vencido
A janela respingada de chuva
E tudo que ela guarda
Por tras do frágil vidro
A tiunfal escapada
A rebelde fuga
O pulo furtivo
A aventura escancarada
E até, quem sabe,
O despertar desse confinamento
A irresistível e irremediável entrega
Para a possibilidade
Para a imensidão.

Família

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Infância

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia
Eu sozinho, menino entre mangueiras
lia história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
– Psiu… não corde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito
E dava um suspiro… que fundo !

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

(Carlos Drummond de Andrade)

Para esse primo que foi tio, que muitas vezes foi pai, e que dividiu memórias que coloriram minha infância. Gratidão.