
“Existe no homem um vazio do tamanho de Deus.”
“Pain and suffering are always inevitable for a large intelligence and a deep heart. The really great men must, I think, have great sadness on earth.”
Fiodor Dostoiévski
Para mim, a poesia de Carlos Drummond de Andrade é um tesouro. É alimento se tenho fome, é remédio se tenho dor, é colo se tenho medo, é abraço se estou só.
É pintura, cor e beleza escrita.
Viva a poesia de Drummond!
Location:Tesouro
Confabulando sobre a vida com uma amiga pra lá de especial, recebi sua resposta, sempre despretenciosa e cruelmente sincera. O texto é, entre nuances humorados e ácidos, brilhante. Mesmo não tendo pedido permissão pra ela (ainda), sinto que tenho que publicar no meu blog. (e vou apagar se ela pedir, claro).
Uma mulher de ímpar sensibilidade e inteligência, que sabe misturar, sem moderação, o acolhimento amistoso, a cumplicidade indignada, e a humildade sábia de quem ja viveu 50 primaveras e entende, como ninguém, as angústias que vão no meu coração bobo.
Amei a resposta. Por isso compartilho agora:
“Falou bem colega: hoje em dia só deve estar 100% feliz quem acertou na dose do faixa preta. O que não é o meu caso, ainda.
Eu não acho que os remédios vão curar nossa infelicidade, mas eles colocam rodinhas na mala da vida e fica mais fácil de empurrar o peso dos dias, só isso. E há fases na vida da gente que, vamos combinar colega, a vida vira uma mala sem alça carregada de pedras pesadas demais.
Não consigo acreditar que exista essa tal de felicidade. Acho que ninguém consegue ser feliz o tempo todo. A gente é feliz aqui e ali, de vez em quando, parte do tempo. Alcança sabedoria quem consegue aceitar que a vida é assim mesmo, uma mistura de doce e amargo, de lixo e luxo, de extremos. Quem consegue se desapegar de tudo. E principalmente quem consegue aceitar que todos nós nascemos, vivemos e morremos sozinhos. É assustador, se a gente parar pra pensar. Acho que por isso os homens inventam religiões, crenças, filosofias, sempre tentando aplacar essa angústia que advém da consciência de que viver é um ato solitário, da gente com a gente mesmo, e cada um precisa fazer suas perguntas e buscar suas próprias respostas. E nem todos conseguem. Por isso sofremos tanto e nos decepcionamos tanto com os familiares, quando descobrimos que nossos pais( irmãos, maridos, filhos, amigos etc) não podem nos ajudar nessa busca. E nem nós podemos ajudar nas deles, no máximos só conseguimos ser testemunhas impotentes. Por isso casamos, procriamos, ansiamos por construir pontes com outros seres humanos na tentativa de nos salvarmos dessa consciência dolorosa. E quando os filhos são pequenos ( ou o casamento tá na fase da lua de mel, da paixão) chegamos a acreditar que conseguimos estabelecer uma ponte inquebrável com outro ser humano, mas os anos passam e vemos que era só uma outra ilusão, continuamos sós.
Por isso que desconfio muito de gente que diz que encontrou o caminho pra felicidade e que agora quer ensinar ele pros outros. Não acredito em gente que tá sempre alegre, pra cima, positiva, tenho horror às Polyanas desse mundo. Pra mim gente assim ou é doida ou tá mal informada. Essa vida é uma piada mesmo colega. E o mundo é um local muito mal frequentado. E já reparou como cada vez chegam novos trastes nesse mundo?
Eu na verdade sinto inveja da minha cachorra. Da leveza dela. Da alegria dela com os pequenos prazeres: acordar de manhã balançando o rabo, comida, carinho, passeio no parque, correr livre pelo gramado e a noite dormir na cama comigo, relaxada, sem nenhum medo, nenhum regret, nenhum care in this world. Deve ser ótimo. Próxima encadernação, se isso for mesmo verdade, quero vir como cachorra de madame. Ou coral, no fundo do mar. ”
(…)*
Num é demais?
Pode uma pessoa com tamanha lucidez não dividir essa sabedoria toda com o mundo?
No fundo acho que ela se sente como Raul Seixas quando disse: “sou louco porque o mundo não merece minha lucidez”
Aplaudi de pé.
Obrigada colega.
* Após devidamente autorizada, revelo o nome desta brilhante jornalista, cronista, escritora e mulher: Silvia Dutra
Silvia Dutra é jornalista, graduada pela Metodista de São Bernardo do Campo. Foi repórter e redatora do Jornal da Cidade, de Bauru, e trabalhou na Editora Papirus de Campinas (SP). Reside há 10 anos nos Estados Unidos e mantém o blog Causos da Vida Alheia, que reúne textos de humor, escritos em “caipirês”. Visitem: http://causosdavidalheia.zip.net/
A carinha dela é assim ó:

Obrigada colega. Apesar do mundo ser muito mal frequentado, a gente ainda encontra pessoas, cachorros e lugares que ainda valem a pena! Beijocas.

Funny thoughts came to my mind today…
It feels like life is passing by and nothing is being achieved. Somehow, by now, I would have counted on a whole lot of great happenings and experiences that just didn’t occured yet.
I always thought that when I was a 40 year old woman I would have already collected amazing stories and lived such a life that would be worth telling in a book, for posterity, for my great grand children to read, one day, and be proud of my courage and boldness.
So, here I am, kind of feeling like a child and still awaiting for my opportunity to live. I am not feeling sorry for myself but I am sure to specially proud of the not amazing life path I have taken so far.
I spent most 20 years in a empty relationship with a mummy that I used to call husband, but today I realized that i became kind of a mummy myself during this long story.
The one amazing thing I did for sure was to make, give birth and raise a fantastic child. But of course if that is a successful story it’s also due to his own beautiful being, as a sweet baby that became a dear boy and a beautiful boy who is becoming a great man, gradually, showing that he is his own person, influenced of course by his good raising but despite all external influences, he is, indeed, a strong, kind and intelligent man. I am proud of being a mom, no doubt. That’s definetely my one sure case of no regrets.
But now, that I am thrown back at life as an individual, all this questions about my purpose in life is overwhelming and scaring the hell out of me, because deep inside I expected much more out of my existence, and as an individual I feel that I owe much more to myself, both in experiences and achievements.
I realized i want much more from life.
I need more.
And eventhough it takes a great dosis of unattachment and bravery to start up an amazing new life, it also requires real courage and self-love to realize such a journey. In order to be fair to my essence I need to follow my bliss and to be extreamely honest with myself.
I feel that i spent the first 40 years of my life trying to please others and that can never be satisfying enough for any side of the game. In a way, i gave most of the people in my life, the mistaken impression that my purpose of existence was to be a part of their plans and dreams, while I neglected my own hopes and wishes.
I had enough of being people’s life-excuses and life-extensions. I had enough of selfish pseudo friends who fed my anxiety for happy endings. I had enough of coming second or last on my own experience. I had enough of postponing my purposes. I’m finally getting ready to fly and I will do so, soon, and yet, I’m already doing it. It will not be for anyone but myself, therefore I’m carefull enough to not drive over anyone’s hearts and feelings, simply because that’s not who I am. This is a lonely journey. This is like life itself, but with one very defined aim to persue and reach wholeness, and finally: happiness.
Location:R. Direita,Cotia,Brazil
Todo mundo que existe, tem um baú.
Lá dentro se guardam
Mágoas passadas
Pensamentos esquecidos
Histórias interminadas
Corações partidos
Segredos ocultos
Rostos sumidos
Olhares, vultos
Amores perdidos
Planos inacabados
Projetos impossíveis
Idéias improváveis
Mudanças intangíveis
Sorrisos negados
Olhares escondidos
Palavras emudecidas
Gestos envaidecidos
Vontades reprimidas
Mistérios indecifráveis
Dúvidas envelhecidas
Pedidos inalcançáveis
Frases repetidas
Sonhos despedaçados
Noites mal dormidas
Dias intermináveis
Horas mal vividas
Abraços nunca dados
Tristezas empoeiradas
Presentes rejeitados
Mentiras deslavadas
Discursos postergados
Carinhos negados
Elogios impronunciados
Saudades insuperáveis
Lágrimas ressecadas
Viagens prometidas
Habilidades enferrujadas
Declarações incompreendidas
Experiencias abandonadas
Esforços ignorados
Iras escancaradas
Medos estagnados
Tempo desperdiçado
Sentimentos trancafiados.
…
Dentro de cada baú um universo
Dentro de cada verso uma história
Libera, liberta, vive o agora
O baú de nada mais serve, ignora
Olha as crianças brincando lá fora
Até o cadeado, enferrujado, quebrado
Ja não guarda nenhum segredo
Ja não causa mais nenhum medo
Cansou, perdeu, foi embora.
Para crescer, revire seu baú
Para viver, esvazia-o.