dor

Portas

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Portas me fascinam
passagens, saídas e entradas
Possibilidades, oportunidades
Chances de ação e repouso
Aconchego e liberdade.

Fechadas, ensinam a buscar outros refúgios, testar caminhos
Abertas, convidam a entrar, mas também permitem sair, buscar, sumir

Portas, portões, portais, passagens, tuneis, janelas, espaços efêmeros
Instáveis
Necessários
Simbolos de introspecção e fuga.
Proteção e libertação.
Expressão do quão aberto (ou fechado) se está para a vida.
Limiar entre a fachada sempre muito superficial
E as paredes internas, sua luz, sua escuridão.

Portas se abrem
Portas se fecham
Portas apenas estão.
Madeira, vidro, aço, ferro,
Tecido, palha, papel, algodão
Só espaço
por detrás e através
Só o momento, o lado
[in] PORTA
(trans) PORTA
{PORTA}

E a porta,
Que porta?
Ela já não importa.

Toda a dor do mundo

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Toda a dor do mundo
Não se pode pintar
Porque a dor é maior que o mundo
Maior que a pintura
E maior que a arte

Por isso que se pinta
Pelas grandes emoções que [simplesmente] não cabem

Pelas dores
Pelos medos
Pelas fúrias
E pelos amores

Todo amor e toda a dor
E tudo mais que ultrapassa a pele e os ossos
Que não cabem no espaço que são
Devem ser mecânica
Generosa
Minuciosamente pintados
Porque assim desafogam
Ou ajudam a dizimar de vez
Os olhos e as almas
Dos que, inertes
Indefesos
Ou inescrupulosamente
sentem.

Dentro de Mim

Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
-- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
-- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

                            Florbela Espanca


Lágrimas ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

                             Florbela Espanca

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A poetisa portuguesa Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa, a 8 de dezembro de 1894. Em novembro de 1903, então com sete anos, escreve seu primeiro poema denominado “A Vida e a Morte”. Em 1907 aparecem os sinais da sua doença, a neurastenia (irá compor, anos mais tarde, um poema com este nome). Em 1908 sua mãe morre e Florbela vai para Évora prosseguir seus estudos. Em 1912, aos 19 anos, casa-se no civil com Alberto Moutinho. Em 1916 começa a colaborar com o jornal “Notícias de Évora”.

Em 1917, se inscreve no curso de direito da Faculdade de Lisboa. Ao mudar-se para Lisboa começa a freqüentar a vida boêmia. Sofre um aborto involuntário. Separa-se do marido e começa ser vista como “vagabunda” pela sociedade portuguesa. Em 1919, publica o “Livro de Mágoas”. Em 1921, casa-se novamente. Um novo aborto. Em 1924 outra separação, que leva a sua família a se distanciar dela por dois anos.

Em 1925, novo casamento, agora com Mario Lage. Publica a tradução de romances franceses. Seu irmão falece, tornado-a imensamente triste. Seu casamento se desgasta, vindo a se apaixonar pelo pianista Luis Maria Cabral, a quem dedica os poemas “Chopin’ e “Tarde de Música”. Tenta suicídio pela primeira vez, talvez por causa do pianista. Em 1930, começa a escrever o seu “Diário do último ano”. Depois de uma segunda tentativa de suicídio, revê as provas do livro “Charneca em flor”. A 8 de dezembro, suicida-se tomando Veronal.