gato

Sobre lugares na história. Or: the cat in the bathroom.


(Texto em português abaixo)
About this painting: 
Life is taking me for quite a ride.

One day I find the love of my life, the other day my country become a hostile territory ruled by a mad man. Things that are apparently unconnected but everything has some common ground. 
This is the first time I make a painting to my home.

I wanted a painting in the toilet.

A cozy painting of a toilet.

There is a nice bathtube, towels, soaps, paintings on the wall, curtains and a window with a peaceful view, a sink and obviously a potty. It is cute and silly. It is a clean and safe place where people can sit and relax while doing their business. People will watch and be watched: there is a cat in the middle of the painting. In this personal metaphor the bathroom represents the comfort of finally having your own space to live and care for, while the cat is the owner, the user, the keeper and the guardian of the space that he finally can call home.
But the painting is also symbolic.

It’s the place where you “let go”. 

The place that you put out your excrements.

This painting could represent the whole contemporary moment of a country. An ambiance where everything looks satisfactory, but it is a sad representation of a whole home. It is a place to wash, but nothing is being washed. It is a place where every day a lot of sh*t is being done, deposited, spoken and exposed without any restriction, criteria nor shame. A country that allows massive defecation without due care, could soon be clogged, flooded, interdicted and ruined. A country, should not be turned in to a toilet by it’s government. Once again, it had everything to be put into good use and become a healthy, comfortable part of a good home. But if the cat sits there, in the middle, and does nothing, soon not even the cats will be able to live that environment. In this metaphor the bathroom is a country and the cat is its people. 
The narratives of my paintings are quite open. You can enjoy it or not, you can like it or not, but it is always up to the viewer to figure out where this place really is and how the characters will react to the story. I know what I want for my story and what I need to do to get there (I am there, indeed) I just hope the people from that country realize soon enough that just sitting and watching will not be enough.
PORTUGUÊS:
A vida está me levando para um interessante passeio.

Um dia encontro o amor da minha vida, no outro dia meu país se torna um território hostil governado por um louco. Coisas que aparentemente não estão conectadas, mas tudo na vida tem algum ponto em comum.
Esta é a primeira vez que faço uma pintura na minha casa.

Eu queria uma pintura no banheiro.

Uma pintura aconchegante de um banheiro.

Há uma banheira agradável, toalhas, sabonetes, quadros na parede, cortinas e uma janela com uma vista tranquila, uma pia e, obviamente, uma privada. É fofo e bobo. É um lugar limpo e seguro, onde as pessoas podem se sentar e relaxar enquanto cumprem seus afazeres biológicos. As pessoas vão ver e serem vistas: há um gato no meio da pintura. Nessa metáfora pessoal, o banheiro representa o conforto de finalmente ter seu próprio espaço para viver e cuidar, enquanto o gato é o dono, o usuário, o guardião e o mantenedor do espaço que ele finalmente pode chamar de lar.
Mas a pintura também é simbólica.

É o lugar onde você se desprende do que não precisa e “deixa ir”.

O lugar que você põe para fora seus excrementos.

Esta pintura pode representar o momento contemporâneo de todo um país. Um ambiente onde tudo é aparentemente satisfatório, mas é uma representação triste de uma casa inteira. É um lugar para lavar, mas nada está sendo lavado. É um lugar onde todo dia muita merda está sendo feita, depositada, falada e exposta sem qualquer restrição, critério ou vergonha. Um país que permite vergonhosa defecação sem o devido cuidado, poderá em breve estar entupido, inundado, interditado e arruinado. Um país, não deve se tornar a latrina suja ou o banheiro de seu governo. Mais uma vez, tinha tudo para ser usado para ser parte saudável e confortável de um bom lar. Mas se o gato está lá, no meio, e não faz nada, em breve nem os gatos poderão viver esse ambiente. Nesta metáfora o banheiro é um país e o gato é o seu povo.
As narrativas das minhas pinturas são bastante abertas. Você pode curtir ou não, você pode gostar ou não, mas é sempre o espectador que decide qual é este lugar e como os personagens vão reagir à estória. Eu sei o que eu quero para a minha história e o que eu preciso fazer para chegar lá (de fato, eu já estou lá). Eu só espero que as pessoas daquele país percebam em breve que apenas sentar e assistir não está sendo o suficiente.
Luciana Mariano, all rights reserved.

Gato e rato

A proporção é a desproporção. Quem nunca se sentiu acoado? Quem nunca se sentiu injustiçado? Quem nunca se sentiu pequeno demais e sem forças?

Alguns por sarcasmo, outros por instinto, outros até por motivos alheios a compreensão humana, mostram-se nos bichos que realmente são.

Matar formigas com canhão. Já ouviu este ditado? Pois é, ele não existe. Mas embora ignorantemente inventado, ele expressa o esforço desesperado, inútil e ingênuo de tentar acabar com um mal que se infiltra  egoísta e sorrateiramente, tentando dominar uma situação. Na verdade, um gigantesco e inútil estorvo , massacrando a ínfima fração de um exército, mas sem a menor chance de eliminar o verdadeiro inimigo.

Instinto de sobrevivência todos têm. Todos precisam ter, enquanto ainda somos seres selvagens e rudimentares! Mas o instinto covarde de eliminar o outro por capricho, por sadismo ou vaidade, este eu não entendo. Nem acho que quero entender…

[…]

Que tipo de bicho você é?

Vitrine

Abismal

Meus olhos estão olhando

De muito longe, de muito longe.

Das infinitas distâncias

Dos abismos inferiores.

Meus olhos estão a olhar do extremo longínqüo

Para você que está distante de mim.

Se eu estendesse a mão, tocaria sua face.

Mas os cinco dedos pendem como um lírio murcho

Ao longo do vestido.

Aqui tudo é leve, silencioso, indefinido,

imóvel.

Não tenho mais limites.

Tornei-me fluida como o ar.

Seus olhos têm apelos magnéticos,

mas estou abismada

Em profundezas infinitas.

(Helena Kolody)

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MANEQUIM (DIVAGAÇÕES)

Serei eu, idas e vindas entre olhares curiosos,
Que sobre os ombros se insinuarão para mim?
Serei fendas e batalhas travadas sob o luar
Onde as estrelas me servirão de guia?… Ou
Serei um manequim rígido, frigido e mudo,
Que horas estarei despido de panos e horas
Nu de sentimentos só esperando que alguém me toque?
Serei eu um lenho morto retirado da floresta que ganhara vida
Nas mãos hábeis de um artesão?… Ou serei a lápide fria onde
Fincarei raízes e brotarei novamente em forma de flor
Onde servirei de alimento para os pássaros e as borboletas?

Autor: Jose Aparecido Botacini

29/04/2009

FONTE: http://sitedepoesias.com/poetas/Zezinho