
24.03.1971, em meio a ditadura militar, no chuvoso outono paulistano, entre a Aclimação e Liberdade, eu estreava. Nunca foi facil viver, apesar de, na minha pele, nada ser tão difícil assim. Existir é resistir. É contrariar estatísticas, expectativas, leis da física. 51 anos depois, hoje estou do outro lado do planeta, fazendo o que quero, perto de quem gosto. Ano passado, meio século, a pandemia não me deixou comemorar. Esse ano, meio século mais um, o vírus, a crise, a guerra, a neve, o preço da gasolina, a distância do filho, qualquer coisa, me previne de comemorar. Não há o que comemorar, nunca houve. O tempo é um fenômeno natural usado pelo capitalismo para vender bugigangas e enriquecer poucos míseros bolsos. 24.03.2021 e 51 anos de ego sendo domesticado para existir e muitos outros virão para me ensinar a desistir. As festas haverão de acontecer, antes e depois de todos e tudo. Haveremos de comemorar, num dia especial, a humanidade que se preocupa de fato com o próximo que sofre a fome, o racismo, o frio, a solidão, o desespero. Meu desejo por presente é só um: O eco-socialismo com pessoas mais conscientes, menos idiotia, ignorância, violência, ganância, indigência intelectual e humanitária.
Só isso.
Aí sim dá pra ser feliz.
O resto é ego. E como o tempo, tudo passa.

